Alergia alimentar e imunodeficiência congênita – ainda bem que a natureza é generosa na variedade de frutas

O quinto capítulo do Guia da Organização Mundial de Alergia, a que fiz referência na postagem anterior, trata do mecanismo imunológico da alergia aos componentes do leite de vaca, e alerta que um dos fatores relacionados à alergia alimentar é o estado imunológico da pessoa. Isso porque a alergia é uma reação envolvendo o sistema imunológico do corpo, com formação de anticorpos nas células brancas do organismo, que entendem os sítios alergênicos do alimento como invasores, passando a combatê-los. Assim, pessoas com o sistema imunológico comprometido e/ou com funcionamento alterado, estão/são mais suscetíveis ás alergias alimentares. E esse é o caso das pessoas com síndrome de Down.

Dentre os vários estudos que concluem pela existência de problemas imunológicos associados à síndrome de Down, se destaca a pesquisa coordenada pela pediatra brasileira Magda Carneiro Sampaio, publicada na edição de setembro de 2011 do Journal of Immunology, que concluiu que a cópia extra do cromossomo 21 prejudica o amadurecimento das células de defesa do organismo, os linfócitos. Eis o link para a publicação: http://www.jimmunol.org/content/early/2011/08/19/jimmunol.1003053.abstract

A conclusão desta pesquisa, além de comprovar a imunodeficiência, explica as razões da maior incidência de doenças autoimunes entre as pessoas com síndrome de Down, apontando a relação entre essas doenças e a constatada imunodeficiência primária (e não secundária, como se supunha até então). Isso porque o amadurecimento prejudicado dos linfócitos, causado pelo excesso de material genético, faz com que o sistema imunológico entenda equivocadamente o que é para ser combatido.

Portanto, parece correto supor que o quadro de alergia alimentar de Luisa decorra de sua imunodeficiência congênita, que leva seu sistema imunológico a funcionar de forma alterada e a entender os sítios alergênicos não só do leite, mas de outros alimentos, como ameaça. Por todo o quinto mês de vida da Luisa os acontecimentos apenas confirmaram esta hipótese. Ao iniciar a oferta de alimentosa alergia a diversas frutas e oleaginosas se tornou evidente.

O acompanhamento de uma médica nutróloga, Dra. Concita Pedrinha, foi de fundamental importância nesta fase, (na verdade não apenas nesta fase, mas de forma permanente desde então). Luisa é alérgica à laranja-lima (única espécie de laranja que foi ofertada), banana prata (única espécie de banana ofertada), maçã, uva rôxa (mas uva-passa não), pêssego, amêndoa (levemente), castanha-do-pará (muito alérgica) etc. Montar o seu cardápio é um exercício de observação e de muita criatividade.

Até a Fonoaudióloga, Dra. Cristal Carvalho, participava do teste das frutas. Lógico que pra ela havia também o objetivo de observar a deglutição.
Até a Fonoaudióloga, Dra. Cristal Carvalho, participava do teste das frutas. Lógico que pra ela havia também o objetivo de observar a deglutição.

#ATUALIZAÇÃO: Conversando com uma amiga sobre imunidade e alergia alimentar, fiz as seguintes observações e ela sugeriu que eu as incluísse na postagem sobre o assunto. Então aí vai:

SOBRE AS BASES IMUNOLÓGICAS DA ALERGIA ALIMENTAR:

A reação alérgica à caseína é muito frequente entre crianças com e sem síndrome de Down, como é possível constatar pelas estatísticas. Porém, estas estatísticas não apresentam números reais, pois, muitas pessoas que apresentam características leves, como maior produção de muco e constipação, sequer recebem o diagnóstico correto. No caso da SD, as alterações no funcionamento do sistema imunológico favorecem mais ainda a alergia à caseína. Vou linkar aqui vários vídeos de um médico super especialista em alergia, Dr. Aderbal Sabrá, explicando detalhadamente a relação do sistema imunológico com a alergia alimentar:



E olha que as explicações do Dr. Aderbal nem levam em consideração o funcionamento peculiar do sistema imunológico das pessoas que possuem o cromossomo 21 triplicado, porque a trissomia do 21 altera o funcionamento do sistema imunológico em razão da triplicação dos genes que codificam suas proteínas e enzimas. Eis dois artigos que abordam essa alteração, o primeiro, que explica porque essa alteração do sistema imunológico facilita as infecções de repetição no trato respiratório superior (característica essa que também é um sintoma de alergia alimentar) e o segundo que demonstra as alterações no funcionamento do timo (este artigo já estava no post):

https://www.dropbox.com/s/v1wlpys8gtpc3oi/cei0164-0009.pdf?dl=0

Depois é só juntar todas essas informações pra entender que síndrome de Down e alergia alimentar (na maioria das vezes não diagnosticada) é uma relação muito frequente e subestimada.

2 comentários em “Alergia alimentar e imunodeficiência congênita – ainda bem que a natureza é generosa na variedade de frutas”

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