A relação passional com as tabelas do desenvolvimento

Quem conhece as peculiaridades da síndrome de Down, sabe que é praticamente impossível encontrar padrões idênticos entre os indivíduos com a trissomia. As características de cada um variam muito e, desde o início, as mães ouvem que não devem comparar seus bebês com outros, quer tenham ou não a síndrome. Eu já sabia de tudo isso e já até escrevi sobre isso aqui. Aliás, esse Blog recebeu em seu nome a expressão ‘singularidade’ exatamente por essa razão.

Mas eu não conseguia deixar de flertar com os marcos padronizados de desenvolvimento infantil. Então, aos seis meses, quando Luisa sentou sem apoio, dentro dos marcos de desenvolvimento das crianças ‘típicas’, fiquei muito emocionada, feliz, exultante. E comemorei. Mas, depois, fiquei preocupada considerando os motivos de tanta felicidade. Eu estava tão exultante porque ela sentou, ou porque ela o fez dentro dos marcos do desenvolvimento das crianças sem síndrome de Down?

E me pus a refletir sobre a razão de ainda consultar as tabelas de desenvolvimento das crianças ditas típicas ou ‘normais’. Não porque considere que Luisa não seja normal, não é isso, pois a síndrome de Down não determina sua subjetividade, não a define enquanto sujeito, enquanto pessoa. Mas, porque sei que seu desenvolvimento está sujeito a algumas especificidades que podem exigir mais tempo para a realização de algumas tarefas e funções.

E se sei disso, por qual motivo eu ainda continuava consultando as tabelas de desenvolvimento das crianças típicas? Será que ainda há em mim resquícios de pré-conceitos, de conceitos pré-formados, de preconceitos? Será que eu quero provar a mim mesma que Luisa é capaz de fazer tudo o que qualquer criança faz? Mas eu sei que ela é e sempre será capaz, mesmo que demore mais tempo, mas ela fará, claro.

E depois de muito refletir, percebi que não há razão que justifique continuar consultando as tabelas de desenvolvimento das crianças típicas, nem os quadros comparativos entre elas. Sem perceber ainda me mantinha apegada a velhos padrões, padrões que não fazem qualquer sentido.

Portanto, que bom que Luisa sentou sozinha. Com seis, oito, dez, doze meses, enfim, não importa. O que importa é que sentou. Significa que está bem de saúde, que suas terapeutas são excelentes profissionais, que todas as decisões sobre que caminhos trilhar no suporte ao seu desenvolvimento não estão equivocadas e que está pronta para os novos desafios decorrentes desse ganho de mais autonomia. Então podemos ir adiante: vamos engatinhar mocinha? Temos bastante tempo pra isso, porque agora estou olhando pra tabela certa, a tabela de desenvolvimento das crianças com síndrome de Down.

Recentemente Ana Cláudia Brandão e Patrícia Almeida sugeriram essa, que gostei muito:

http://www.dsacc.org/downloads/parents/downsyndromedevelopmentalscale.pdf

O primeiro registro da novidade =D
O primeiro registro da novidade =D

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