O carnaval em que percebi que estava me transformando na minha mãe

Durante a minha infância fui torturada com aulas de balé clássico. Digo torturada porque eu detestava, então pra mim era uma tortura. Nada contra o balé, inclusive adoro assistir. O que eu detestava mesmo era fazer a coisa. Ainda lembro com ressentimento da professora da última faixa que usei (como nas artes marciais, na escola de balé que eu frequentava as turmas eram hierarquicamente divididas pela cor da faixa do cabelo). Quando, aos 13 anos, fui finalmente liberada da tortura, foi um enorme alívio. Mamãe, obviamente, sabia que eu detestava aquilo, mas não porque eu tivesse contado. Eu não falava nada, mas era bem evidente.

E essa memória sequer passou pela minha cabeça pra me fazer questionar os motivos que me levaram a escolher o tema “Bailarina” pro enxoval da Luisa. E logo após o seu nascimento, houve um dia em que chorei copiosamente porque achava que ela jamais poderia ser bailarina, em razão da frouxidão ligamentar. Voltei a chorar copiosamente quando descobri que há inúmeras bailarinas com síndrome de Down, óbvio, já que a frouxidão é apenas uma dificuldade e jamais um obstáculo intransponível, e comemorei a descoberta num tom meio que de felicidade aliviada.

Pois bem, no primeiro baile de carnaval da Luisa, que coincidiu com o dia em que ela completou 10 meses, ela estava fantasiada de…..bailarina. Não foi proposital. Simplesmente foi. Eu não estava ali querendo dar um recado ao mundo, passar uma mensagem sobre inexistência de limitação ou qualquer coisa do tipo. Foi inconsciente. Mas, algum tempo após o Baile, percebi o enorme equívoco da minha parte – eu estava fazendo planos específicos pra Luisa, e por isso a familiarizando com o ambiente, a estética, o vestuário, as referências do balé. Não acho que eu estivesse inconscientemente já preparando o terreno pra que ela se tornasse uma bailarina, mas que efetivamente eu estava traçando um estilo pra ela, isso eu estava. Um estilo com uma estética definida, com uma clara noção de feminilidade, leveza, sutileza e beleza. A estética do balé. Tudo o que eu não sou, diga-se de passagem. E certamente aí reside a resposta pro meu comportamento.

Se eu detestava, quem garante que Luisa irá gostar? Qual o motivo de já envolvê-la, desde cedo, em um universo que ainda nem sei se ela gostará? Foi aí que eu percebi que eu estava me transformando na minha mãe. Estava direcionando as oportunidades da minha filha pra que ela realizasse a expectativa que era minha e não dela. Ela pode inclusive adorar balé e querer ser bailarina – ou não! O que eu não posso é condicioná-la e não permitir que ela tenha a oportunidade de fazer qualquer outra coisa que ela queira. Pois realmente não há limites. Pra ninguém. Nem para as crianças com síndrome de Down, nem para as crianças sem síndrome de Down.

O futuro é o tempo das possibilidades. Temos que chegar nele preparados para realizá-las. Todas. Inclusive, mas não apenas, ser bailarina, quem sabe. Nunca se sabe. Minha obrigação é apenas prepará-la para que ela própria tenha todas as condições para fazer suas próprias escolhas. Minha função é criar as condições para que ela faça e seja o que bem quiser. A bailarina

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