A peculiaridade da demanda por zinco

A primeira coisa sobre a qual quis me informar após receber os resultados dos exames semestrais de um ano da Luisa, porque precisava entender, foi sobre a demanda de zinco na síndrome de Down.

Eu fiquei impressionada ao saber que, mesmo tomando multivitamínico com zinco, a taxa de zinco da Luisa estava em 71, com valor mínimo de referência em 70. Então, pesquisei. E entendi que a demanda por zinco e cobre é maior nas pessoas com síndrome de Down porque em razão da terceira cópia do cromossomo 21 há 1/3 a mais de determinados genes, dentre eles o gene que codifica a enzima Cobre-Zinco Superóxido Dismutase, ou cu-zn SOD1, ou SOD1. Essa triplicação é que provoca uma maior demanda por zinco (e também por cobre) no metabolismo das pessoas com síndrome de Down, em alguma medida.

Digo em alguma medida porque as pessoas são todas diferentes entre si, então sempre haverá pessoas com síndrome de Down cujo organismo precisará de mais nutrientes que outras. Essa variação, no entanto, se estabelece a partir da constatação de uma maior demanda por cobre e zinco “em alguma medida”, pois se há 1/3 a mais de enzimas que dependem de cobre e zinco, haverá 1/3 a mais de consumo metabólico desses minerais.

Busquei, então, entender as razões pelas quais o zinco fazia tanta diferença assim. Procurei saber qual era, afinal, a função desse mineral (função essa que eu desconhecia quase que por completo até então), cuja oferta insuficiente estava associada às causas da pneumonia da Luisa. As respostas a essa busca renderam três posts onde pretendi compartilhar o que encontrei com as famílias que fazem parte do grupo de compartilhamento de informações do Blog, e que seguem abaixo transcritos.

Antes, no entanto, vale informar que, desde que a suplementação de zinco foi corrigida, estamos há seis meses sem episódios preocupantes de viroses (apenas dois episódios que melhoraram em 24 horas). É lógico que não é uma receita ou solução única e comum a todos. Mas é possível que este mesmo problema esteja afetando muitas pessoas. Então vale a pena se informar, pesquisar e conversar com o médico. Com a Luisa valeu muito a pena, pois recebi de volta a criança cheia de disposição que ela era antes, como se pode ver no vídeo abaixo, quando ela estava com treze meses, fazendo a coreografia do clássico Pintinho Amarelinho.


SOBRE O ZINCO – PARTE I

O zinco é tão essencial para o equilíbrio do metabolismo da pessoa com síndrome de Down, que a Down Syndrome Research Foundation elaborou uma espécie de guia sobre o assunto, que pode ser acessado aqui: http://www.dsrf-uk.org/library/documents/The_Role_of_Zinc_in_Downs_Syndrome.pdf. Mesmo estando em inglês, basta colocar no Google Tradutor para que seja possível entender, em linhas gerais, a essencialidade do zinco para o organismo das pessoas com síndrome de Down.

Na apresentação do Guia, a Down Syndrome Research informa que muitas das patologias recorrentes na síndrome de Down são também observadas em indivíduos com deficiência de zinco. Estas incluem diabetes mellitus, nanismo, hipogonadismo, aterosclerose, deficiência de vitamina A, cegueira noturna, cirrose do fígado, leucemia mieloide (Milunsky, 1970), e hipertiroidismo e hipotiroidismo (Napolitano et al, 1990). Fabris et al (1993) citam a importância de zinco nas redes homeostáticas (sistemas que mantêm o equilíbrio do organismo) que se apresentam alteradas na síndrome de Down, nomeadamente o sistema nervoso, o sistema imunológico e o sistema neuroendócrino, e a sua inter-relação. As alterações desses sistemas, somadas a uma quantidade reduzida do mineral, conduzem à hipótese de que a deficiência de zinco pode ser implicada em pelo menos uma parte do fenótipo da síndrome de Down.

Trocando em miúdos, a Down Syndrome Research Foundation conclui pela hipótese de que a deficiência de zinco é um fator comum encontrado em várias características fenotípicas da Síndrome de Down.

Assim, se você tem algum tipo de interesse na síndrome de Down, mas tudo o que você sabe sobre zinco se resume ao acréscimo desse elemento à vitamina C para melhorar a ‘resistência’ às viroses, como era o meu caso, as informações dos posts sobre o zinco serão de grande valia.
SOBRE O ZINCO – PARTE II

Se fingirmos que não estamos lendo as palavras doença e portador associadas à síndrome de Down na revisão sobre o metabolismo do zinco na síndrome a seguir linkada, podemos classifica-la como excelente, pois extremamente didática e elucidativa sobre a questão: http://www.scielo.br/pdf/rn/v19n4/a09v19n4.pdf

Nessa revisão, os autores informam que são dois os mecanismos de absorção do zinco pelas microvilosidades da membrana plasmática das células mesodérmicas do intestino delgado (a chamada borda em escova): quando há baixa concentração de zinco, é necessário o auxílio de um transportador; já quando a concentração é adequada, a absorção se dá por difusão simples.

Esses processos de absorção podem ser condicionados por inúmeros fatores. Podem ser dificultados pela presença de antinutrientes inibidores da absorção do zinco (taninos, polifenóis, oxalatos e fitatos), ou facilitados pela presença de aminoácidos ou ácidos orgânicos. Segundo o texto, outros fatores que interferem na absorção do zinco são: “fatores genéticos, inibidores sistêmicos como anabolismo e catabolismo, alterações endócrinas, função hepática, função renal, estresse e infecções.”

Após ser absorvido pelas células intestinais, o zinco é transportado no sangue portal, através da veia porta hepática, que drena o sangue do sistema digestivo e de suas glândulas associadas. O zinco é, então, captado pelo fígado e daí distribuído para todos os tecidos, onde “participa do metabolismo energético, como componente catalítico de mais de 300 metaloenzimas nos tecidos humanos, e como componente estrutural de diversas proteínas, hormônios e nucleotídeos.” (todo o ítem sobre as funções fisiológicas do zinco merece leitura atenciosa)

É no momento da distribuição tecidual do zinco a partir do fígado, que surgem as distinções do organismo com síndrome de Down, pois, a maioria das pesquisas voltadas à verificação do estado nutricional e e da distribuição do zinco pelos tecidos, citadas pelos autores, constatou a baixa concentração do mineral no plasma, soro, cabelo e urina (em regra abaixo dos valores de referência) e alta concentração nos eritrócitos (hemácias), em regra acima dos valores de referência.

São resultados negativos porque demonstram a deficiência de zinco para todos os processos metabólicos em que há participação do mineral nos sistemas endócrino e imunológico. Até mesmo a alta concentração nos eritrócitos é negativa, pois quanto maior for a concentração do mineral nas hemácias (sistema hematológico), mais elevada é a atividade da enzima cu/zn superóxido dismutase e, portanto, maiores são os níveis de estresse oxidativo e consequente dano celular.

Há outra publicação que também encontrou os mesmos resultados apontados por esta primeira, ou seja, nas pessoas com síndrome de Down, há uma alteração da distribuição de zinco pelo organismo, com alta concentração do mineral nos eritrócitos e baixa concentração nos outros meios de verificação: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/9/9132/tde-13012015-124845/pt-br.php

Assim, em síntese, há literatura científica suficiente à demonstração de que, nas pessoas com síndrome de Down, há uma importante alteração na absorção/distribuição do zinco pelos tecidos, podendo causar deficiência do mineral em sua maioria, e excesso de concentração onde esta é prejudicial. (Prejudicial porque representa hiper atividade da cu-zn superóxido dismutase decorrente da trissomia, hiper atividade essa que causa estresse oxidativo e consequentemente dano celular). A hipótese é que a concentração de zinco seja justamente consequência da maior demanda da triplicação gênica, pelo mineral, nos eritrócitos.

Essa hipótese parece se confirmar por outra pesquisa, que constata concentração de zinco nas áreas de formação de placas beta-amilóide no cortex cerebral, enquanto há baixa concentração de zinco disponível aos mecanismos cognitivos. Ou seja, os pontos de estresse oxidativo e hiper atividade causados por superexpressão gênica parecem direcionar a absorção do zinco, promovendo a concentração desse mineral nas áreas de maior atividade. Diz o artigo: “An increase in level of extracellular zinc in amyloid of AD has been observed (Bush, 2013). Earlier studies demonstrated that a small increase in brain zinc concentration (>3 micromolar) increased the adhesiveness of Aβ (Bush et al., 1994) and changed Aβ metabolism. Intriguingly, the area of the brain with the highest level of zinc, the cerebral cortex (Frederickson et al., 1983), exhibits the most severe pathological lesions of AD (Hyman et al., 1986).”
http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0361923001004762
SOBRE O ZINCO – PARTE III

SUPLEMENTANDO ZINCO ATRAVÉS DA ALIMENTAÇÃO:

1. RETIRANDO DA ALIMENTAÇÃO OS INIBIDORES DA ABSORÇÃO DE ZINCO:

Em 2010, pesquisadores da Universidade da Califórnia publicaram um texto acadêmico relacionando os fatores da dieta que influenciam na absorção do zinco. É uma abordagem ampla, para a população em geral, mas que fornece estratégias importantes para as pessoas consideradas vulneráveis quando o que está em questão é a taxa de zinco no organismo.

https://www.dropbox.com/s/tgbdd5b28pl0oyy/J.%20Nutr.-2000-L%C3%B6nnerdal-1378S-83S.pdf?dl=0

2. PRIORIZANDO ALIMENTOS RICOS EM ZINCO:

Na 4º Edição Ampliada e Revisada da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos, elaborada por pesquisadores da UNICAMP e publicada em 2011, é possível verificar o índice de zinco presente em dezenas de alimentos, possibilitando várias alternativas para a elaboração de um cardápio saudável e nutritivo para as pessoas com síndrome de Down, desde que seja tomado o cuidado de afastar os alimentos ricos em antinutrientes que potencializam os distúrbios metabólicos causados pela superexpressão gênica:

https://www.dropbox.com/s/x9pccbrsxrbgcva/taco_4_edicao_ampliada_e_revisada.pdf?dl=0

ATUALIZAÇÃO: A publicação da ILSI sobre o zinco apresenta uma ótima tabela de alimentos ricos no mineral. Aqui: https://www.dropbox.com/s/fm13u243ffr9vwq/07%20-%20Zinco.pdf?dl=0

8 comentários em “A peculiaridade da demanda por zinco”

  1. Gisele, obrigada pelas informações. Ao ler ,fiquei com dúvidas e talvez vc possa me responder. Qual é o valor de zinco que deve ser mantido para as nossas crianças ? ( nos exames o valor mínimo é 70,não lembro a unidade de medida );se o exame estiver normal, dentro do valor,tem problema dar a suplementação com biozinc?

    1. Oi Isamara. A dosagem ideal de zinco vaai depender de cada pessoa. No caso ds Luisa, ela precisa ser muito alta. Hoje mesmo eu estava comentando com outra mãe como fico impressionada ao ver a quantidade de minerais que o organismo da Luisa demanda. Mesmo com o Nutrivene D e mais suplemento de zinco, a taxa dela nunca chega em 100 e, além disso, eventualmente ela apresenta sintomas de maia demanda. Outro dia fiquei assustada porque percebi um início de aspereza nas mãos e pés. Mais recentemente, também por causa ds Clorella que dei em agosto e que arrasta minerais, começou a ranger os dentes e nossa médica local prescreveu um repositor mineral mais completo e consistente por 20 dias. Mas antes do décimo dia, felizmente, o ranger parou. E esssas coisas todas acontecem enquanto as taxas dela estão dentro dos valores de referência. Então, o que aprendi sobre a Luisa, foi que o médico precisa ohar não apenas pra taxa, mas pras manifestações clínicas que ela apresenta. E isso vai variar de pessoa pra pessoa. Mas o médico da criança saberá identificar as manifestações clínicas de uma maior demanda por zinco, além do que esteja sendo ofertado.

  2. Boa noite, adorei o blog e vou começar a seguir. Fiquei preocupada pois a taxa de zinco alta parece que não é positivo.
    Meu filho está com o zinco no valor 128, ou seja, acima da curva.

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