Sem pressão e sem ansiedade, Luisa andou

Três fatores foram muito importantes para reduzir a minha natural ansiedade, quando o assunto era o marco do andar. O primeiro deles foi o sentido que eu vejo na teoria do neurodesenvolvimento. Vejo lógica na ideia de que o andar é uma consequência do arrastar dissociado e do engatinhar, então a minha ansiedade era muito maior nessas etapas anteriores, na verdade.

O arrastar dissociado permite aos dois hemisférios cerebrais trabalharem em conjunto e, por isso, é muito importante para promover a coordenação, foco, estratégia e concentração, além de fortalecer a musculatura lateral para as etapas posteriores. E o engatinhar é fundamental para a formação de conexões cerebrais que contribuem para os sentidos da visão, tato e propiocepção, assim como amadurece a coordenação motora, a força muscular e, consequentemente o sistema nervoso. Pular essas etapas acarreta prejuízos enormes ao neurodesenvolvimento, prejuízos esses que se revelarão mais à frente, em uma série de dificuldades das mais diversas ordens, de fala, de coordenação, de propiocepção e, inclusive, cognitivas.

Assim, depois que Luisa arrastou  dissociado e engatinhou, muito de ansiedade com o neurodesenvolvimento se dissipou. E permitiu que eu simplesmente deixasse fluir, sem angústias, o que viria depois, pois eu sabia que o andar era consequência das etapas já conquistadas.

O segundo fator foi o Spasmus Nutans. Como sabemos que os balanços de cabeça afetam o equilíbrio e a propiocepção, não fazia nenhum sentido pressionar a Luisa para andar. Ou exercitá-la incessantemente com esse objetivo. Não sabíamos o quanto os balanços a deixavam insegura, então a deixamos mais livre para fortalecer a sua auto segurança no caminhar. Por essa razão, nunca aumentamos o número de sessões de fisioterapia depois que ela começou a caminhar se segurando nos móveis e a dar sinais claros de que queria se soltar e caminhar sozinha.

O terceiro fator que contribui para não alimentar ansiedade, é a equipe de profissionais que atende a Luisa. Nós temos muita, muita, muita sorte por termos essas profissionais na nossa vida. As terapeutas que a atendem pelo plano de saúde, a quem nunca posso me referir por causa da ação judicial contra a Clinica que negou atendimento à Luisa, e que permanece em curso, são maravilhosas. As terapeutas particulares, não tenho nem palavras pra descrever. Drª Renata Teixeira, a T.O., é a grande responsável pela desenvoltura da Luisa. E a Drª Lilian Fialka é incrível, super capacitada em tudo. Só a forma como pega na Luisa, desde a primeira vez, imediatamente me mostrou que posso ficar tranquila. Então não havia qualquer insegurança ou uma mínima fagulha de desconfiança sobre o suporte que ela estava recebendo. Portanto, era só manter a calma e aguardar que a segurança para a caminhada fosse construída ao longo dos dias.

E a construção dessa segurança foi um processo. Desde o tempo em que começou a ficar em pé nos móveis, aos oito meses, como já mostrei aqui em post anterior. A recomendação, em regra, é para instalarmos uma vara de cortina como barra, à altura do peitoral da criança, para que ela possa se apoiar e estimular a caminhada lateral assim que ela comece a levantar nos móveis. Só que Luisa começou a levantar antes que seu engatinhar estivesse perfeito, então aguardamos mais um tempo para colocar a barra  e não a estimulamos a ficar em pé até que o engatinhar estivesse totalmente ok.

A barra deveria ser acompanhada por um espelho por trás, mas ponderamos que o seria um risco com o Heitor e nunca o instalamos. Aos 12 meses ela já caminhava lateralmente na barra (e também nos móveis), como vemos na foto abaixo:

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Só então passamos aos estágios seguintes, que contaram com a ajuda de brinquedos de apoio para a caminhada, possibilitando a experiência de caminhar com apoio não apenas lateralmente, mas também de frente, experiência essa que com um ano e dois meses ela já dominava completamente, mesmo com as visíveis dificuldades enfrentadas nos dias em que o balanço da cabeça ficava muito intenso, como visto nos vídeos abaixo:

Com um ano e dois meses Luisa também começou a se soltar dos móveis por alguns segundos, eis um vídeo:

Ainda nessa idade começou  a dar os primeiros tímidos passinhos, muito poucos de cada vez, mas só o fazia se estivéssemos bem perto ou se tivesse móveis às proximidades, e permaneceu apenas com esses passinhos até 1 ano e 3 meses, como na situação do vídeo abaixo:

A partir de 1 ano e 4 meses ela sentiu um pouco mais de segurança e, além de aumentar gradativamente a distância da pequena caminhada, passou a tomar a iniciativa de fazê-lo, sem que precisássemos chamá-la:

Aos poucos os braços adotavam a posição junto ao corpo, baixados, e a marcha ganhava em ritmo, consistência e autonomia. Acredito que o treino na esteira, um projeto antigo que fôra suspenso por causa da investigação do Spasmus Nutans, e que, após o diagnóstico, está sendo retomado aos poucos,  tenha contribuído bastante para a autonomia da marcha. E Luisa adora esse treino:

Assim, com 1 ano e 6 meses a autonomia de marcha já era consistente.  Percebi isso ao sairmos para o aeroporto, quando da viagem para São Paulo, para as consultas de 1 ano e 6 meses, pois, quando Luisa viu chegar a vizinha querida, soltou da mão da Neiva, saiu em disparada e ignorou o pequeniníssimo desnível que existe na portaria do prédio, onde ela sempre diminuía a marcha. Eu estava filmando suas brincadeiras enquanto aguardávamos e tomei um susto com a corridinha e  automaticamente parei de filmar,  com medo que caísse 😅:

Então quando me perguntam quando Luisa começou a andar, eu respondo: dos 14 aos 18 meses, hehehehe. Porque foi um processo.  Meu amigo querido Sérgio Carvalho, grande fisioterapeuta de Minas e colega de pós, me diz que o marco são os primeiros passinhos, mas acho bem mais de acordo com as características dela, falar em processo. De modos que, os 18 meses (1 ano e 6 meses), depois desse ciclo que considero como o início, me parece ser um marco mais apropriado sobre o tempo em que Luisa assumiu a posição “de pé” na quase totalidade de seu dia, caminhando com autonomia, consistência, ritmo e firmeza, sem cair e sentando apenas quando a situação exigia.

A partir daí, ninguém conseguia segurá-la. Se soltava de todos e saía acelerada onde quer que estivesse. E na maioria das vezes descalça, pois, sempre que consegue (e sempre consegue), tira os sapatos. Foi o que aconteceu em pleno Hospital Ophir Loyola, enquanto ela aguardava sua vez no CRIE:

Fico feliz por termos alcançado mais um marco de desenvolvimento. Aprendi com Liane Souza, mãe do Carlos Eduardo, com paralisia cerebral, que a palavra superação não é adequada. Superar vem do latim SUPERATIO, que significa elevar-se, passar por cima. E de fato, Luisa não superou nada. Nem a síndrome de Down, nem o Spasmus Nutans, pois ambos continuam nela. Ela não se elevou a eles e nem passou por cima deles, os deixando pra trás, mas, nos mostrou que convive com eles e avança em seu desenvolvimento sem conflitos com sua condição genética e as comorbidades que dela decorrem. Pode demandar um pouco mais de esforço, demorar um pouco mais de tempo mas de forma alguma a limita, porque não há limites.

Gosto de tomar cuidado com as palavras e o significado por trás de seu uso, pois acredito que formam o inconsciente coletivo. As expressões não são gratuitas.  Já dizia José Luiz Borges que “As palavras são símbolos que carregam uma memória compartilhada”.

Então Luisa atingiu mais um marco de desenvolvimento COM a síndrome de Down e COM o Spasmus Nutans, pois, outra lição que a prendi com Liane é que as conquistas de Luisa não acontecem APESAR da síndrome de Down, pois sua condição genética não é um peso e por isso não há pesar e nem apesar.  O que há é uma menina arteira e feliz.! E comilona! E agora também uma andarilha! E tão amada………❤️

4 comentários em “Sem pressão e sem ansiedade, Luisa andou”

    1. Nossa Helcia, obrigada. É muito importante pra mim saber que esse compartilhamento de experiências nos ajuda. Outras mães me ajudaram também. É uma satisfação saber que também contribuo.

      Abraços,

      Gisele

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