UMA REFLEXÃO SOBRE O ENEM E A SÍNDROME DE DOWN

Você sabe quem é o indivíduo com síndrome de Down? Uma pessoa com síndrome de Down não é apenas um indivíduo que nasceu com a trissomia do cromossomo 21. Ela é esse indivíduo, no contexto da sociedade capacitista, meritocrática e estratificada em classes em que vivemos. Essa pessoa, quando nasce, já encontra um contexto de estereótipos e pré concepções sobre sua personalidade e capacidade. Para afirmar sua individualidade, a pessoa com síndrome de Down tem que brigar pra mostrar a todos sua subjetividade. Tem que superar os condicionamentos enraizados pelos estereótipos e pré concepções que lhe imputam, desde o nascimento (tudo similar ao que acontece com as minorias em geral).

Então a pessoa com síndrome de Down NUNCA, NUNCA, NUNCA luta para superar a síndrome, pois a síndrome é apenas a sua condição genética, que não a define enquanto sujeito. (Então, por favor, vamos dar um basta na expressão toda equivocada “exemplo de superação”). Ela luta para superar o estigma, o estereótipo, a concepção previamente construída sobre si. Ela luta para desconstruí-la.

E nessa luta, as pessoas com síndrome de Down têm demonstrado, cada vez mais, que a consideração sobre sua capacidade intelectual é falaciosa. E um dos critérios para tal demonstração tem sido o ingresso no ensino superior, cada vez mais frequente.

E eis que chegamos ao ENEM. O ENEM é composto por 180 questões e uma redação, em dois dias de provas. No primeiro dia são 45 questões de Ciências Humanas e 45 questões de Ciências da Natureza, em 4h30′. No segundo dia são 45 questões de Linguagens e Códigos, 45 questões de Matemática e uma redação, em 5 horas. Exaustivo para qualquer estudante, tenha ele ou não deficiência intelectual. Para aqueles com algum tipo de especificidade, sao concedidas estratégias de acessibilidade, que em nenhum momento reduzem a dificuldade das provas, vamos deixar claro.

E neste ano foi cobrado um conhecimento bem mais aprofundado de Sociologia, que em regra não é explorado nos currículos do ensino médio. O mesmo, provavelmente, deve ter acontecido em outras áreas do conhecimento

Então o que ocorre é que o ENEM reproduz a estrutura social meritocrática que não tem como fundamento iguais oportunidades. As chances de sucesso pendem em favor dos estudantes desde sempre favorecidos por ensino regular de qualidade, aulas de reforço, cursinhos específicos e suporte para situações cognitivas específicas. Toda a dinâmica é desfavorável ao estudante da escola pública que não tem acesso a tantas oportunidades. E também é desfavorável ao estudante com deficiência intelectual que desde sempre teve que lutar pra superar não a sua deficiência, mas a invisibilidade que lhe é conferida. Teve que lutar contra o descaso de um ensino regular que não atende suas especificidades de aprendizado, contra o preconceito, a negligência escolar, a ausência total de estratégias de ensino e aprendizagem, o desinteresse, o bullying, a ausência de políticas públicas, os juízos de valor, a mercantilização do ensino e outros quetais.

Assim, meus amigos, vamos celebrar essa garotada que está furando o cerco de uma estrutura educacional segregadora, meritocrática e capacitista e fazendo o ENEM. Eles não merecem ser celebrados porque estão conseguindo chegar ao ensino superior “apesar da sua condição”. Eles merecem ser celebrados, porque, contra todas as adversidades, adversidades essas que não estão na deficiência e sim no contexto, estão se construindo como indivíduos, para além das amarras das concepções prévias sobre suas capacidades. E estão fazendo isso junto com a sua condição e não “apesar dela”. O resultado? Isso pouco importa, pois já sabemos que o modelo de avaliação foi montado para o sucesso de alguns, em detrimento da diversidade.

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