Sobre a Itália e a Holanda (ou o caminho da praia e da montanha) e a síndrome de Down

Quando nasce uma criança com síndrome de Down, é inevitável que a mãe encontre a leitura de um texto chamado Bem vindo à Holanda. O texto fala sobre o inesperado, fazendo uma metáfora com a programação de uma viagem. A pessoa planejou ir à Itália mas desembarcou na Holanda. Ok, não é a Itália, mas é a também belíssima Holanda. Então se vc entender que a Holanda tem suas belezas únicas, vai deixar de ficar triste por ter chegado a um destino diferente do planejado, já que também é um destino lindo. Há também o vídeo de várias famílias indo pelo caminho/estrada da praia com seu bebê, enquanto a família de uma bebê com paralisia cerebral tem que pegar o caminho/estrada da montanha, muito mais árduo, mas igualmente lindo e recompensador. No final das contas, é uma outra abordagem do luto do filho idealizado.

A questão com essas duas metáforas é que elas pressupõem que o destino escolhido e o caminho da praia existam naturalmente, quando na verdade eles são construções sociais. Pressupõem que se a criança não nasceu com deficiência a família vai parar no destino desejado ou na estrada mais fácil. E todos, todos os que são pais sabem que não existe isso. E não existe, simplesmente porque não há um padrão de ser humano. O filho idealizado não passa disso, de uma idealização. Todas as pessoas são únicas e diferentes umas das outras e a interação com seus pais proporciona diferentes experiências de maternidade/paternidade. Não há um padrão a ser tido como “normal” . Não há receita pra criar filho justamente porque não há padrão. Se todos são diferentes, o que existe são múltiplos destinos e estradas. Então existe o destino/estrada do autismo (que pode se ramificar em tantas outras que nem sei), da sd (igualmente ramificada), da deficiência visual, da deficiência auditiva, do TDAH, da dificuldade de aprendizagem, da deficiência física(inclusive a adquirida, superveniente), da paralisia cerebral, das altas habilidades, da dificuldade de aprendizagem, da depressão, da esquizofrenia, da inabilidade ou fobia social, da agressividade, dos distúrbios do desenvolvimento, dos distúrbios de fala, da doença incapacitante, das comorbidades e patologias que representam risco à vida…… enfim…. quem pode saber o que nossos filhos irão apresentar durante a vida, no momento ou após o nascimento? Diante de tantas possibilidades, existe mesmo chegar ao destino escolhido? Pegar a estrada mais fácil?

Claro que não. Ocorre que em razão das expectativas que criamos em torno do filho que vai nascer, nunca chegaremos ao destino escolhido, PORQUE ESSE DESTINO É UMA IDEALIZAÇÃO, construída sobre aquilo que valorizamos. E o caminho nunca, nunca, nunca será fácil. Em nenhuma hipótese. Pode ser que em muitos aspectos seja mais simples estar em alguns destinos ou trilhar por alguns caminhos. Mas, apenas em alguns aspectos. Todas as jornadas têm seus problemas. E é nisso que reside a riqueza da natureza humana, a capacidade de se adaptar a qualquer circunstância. Não se preocupe, mãe/pai de criança com síndrome de Down. Se seu filho(a) não tivesse a síndrome, também não haveria garantias de que seria fácil, de que você chegaria ao destino escolhido ou pegaria o caminho da praia. Na verdade, diante das expectativas maternas/paternas a probabilidade é de que isso jamais aconteça. Então vamos aproveitar nossa jornada. Ela é única, pessoal e intransferível. E como todas as outras, é árdua, mas também é bela. Divirta-se.

PS: quem vos fala é uma mãe que teve luto do filho idealizado, que chorou pq não desembarcou na Itália e que suspirou ao ver o tamanho da montanha que tinha que subir. Demorou um tempo pra que eu percebesse a “normalidade” como construção social e, portanto, deixasse de sofrer por uma idealização. Quando percebi, finalmente entendi que ninguém desembarca na Itália, e que todos os caminhos passam pelas montanhas. Como esse entendimento me trouxe mais leveza, minha intenção é levar essa leveza a quem se identificar. ❤

10 comentários em “Sobre a Itália e a Holanda (ou o caminho da praia e da montanha) e a síndrome de Down”

  1. Maravilhoso texto, ele também representa o meu sentimento… diferente da maioria das mães eu não tive esse sentimento de luto,
    Quando sofro , é por causa das diferenças, da falsa inclusão e principalmente pela ignorância de muitos.

  2. Não tenho filho com síndrome de Down mas, tive muitas questões desafiadoras que muitas vezes me levaram para o monte Everest e por pouco não sucumbi por causa do ar rarefeito.
    Acredito que o texto da Holanda pode até ser bom para quem já tem filhos maiores.
    Mas, sejamos honestos, antes de olharmos para a Holanda com bons olhos teremos uma briga boa com a agência de viagem que “errou o nosso destino”.
    É pelo direito dessa “briga” e de um questionamento saudável é necessário sobre o presente que a vida nos dá que trabalho através do Empathiae. É isso vale para qualquer situação à qual precisemos passar por conta de nossos filhos.
    Se não pudermos questionar o presente nunca aceitaremos de maneira plena e saudável o futuro que a vida tem pra nós.

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