QUEM É A PESSOA NORMAL? Sobre o surgimento e reprodução do padrão de normalidade enquanto sujeito univeral – o padrão do homem branco, não periférico, heterossexual e sem deficiência

 

Os grupos privilegiados invisibilizam as minorias sociais na esfera pública, impondo inclusive simbolicamente, mas também com suas práticas e discursos, sua ética, suas visões de mundo, como “absolutas e naturais”.

Tais grupos não precisam ter ou ser a maioria da população em números absolutos. Essa dominação, que transforma aqueles que deles são diferentes em minorias, não tem nada a ver com quantidade de pessoas em seus grupos, mas tem a ver com representatividade e poder. Esses grupos têm representatividade em todas as esferas de poder – econômico, político, social. E é essa representatividade e poder que os estabelece como maioria e que define aqueles que não fazem parte de seu universo – os outros, como minorias.

E quem são essas pessoas? Há dois momentos na história recente que nos mostram isso. O primeiro aconteceu na composição do Governo Temer, quando ainda era Presidente Interino, e vimos 24 homens, todos brancos, todos ricos/não periféricos, sem deficiência e que se auto identificam como heterossexuais, assumirem o primeiro escalão de sua gestão.

Há dois dias, a lista dos 8 homens que juntos, detêm mais da metade da riquezas do mundo repetiu a mesma fórmula. Todos homens, brancos, todos obviamente bilionários, sem deficiência e que se auto identificam como heterossexuais. Você pode até questionar se Bill Gates tem autismo, mas, como ele não se auto identifica como tal, esse argumento não pode ser usado.

Diversidade de gênero, de raça/etnia, de orientação sexual, classe social, diversidade de corpos ou neurodiversidade? Esqueça. O que existe nesses núcleos de poder é UM PADRÃO.

Se expandirmos esses dois exemplos para outras situações idênticas, constataremos que, historicamente, na maioria esmagadora dos casos, é essa mesma estrutura que se reproduz. O que vemos, então, salvo as exceções do tempo histórico mais recente que confirmam a regra (composições mistas de poder político, econômico e social), é que historicamente se constrói a partir desses grupos que detêm o poder político e econômico a ideia da personificação do ser humano universal, que serviria de base, de modelo, de paradigma , para todos os seres humanos, o sujeito universal iluminista – o sujeito padrão, o sujeito normal.

A noção de sujeito universal contém todas essas características, pretensamente universais e, por isso, este sujeito se tornou uma categoria normativa livre e opressora (interpretação livre da definição de Judith Butler ao escrever sobre o tema, sem que ela tenha discutido neuronormatividade e deficiência). É a normatividade deste grupo que faz com que aqueles que não possuem tais características sejam tidos como “o outro, o diferente” (Simone de Beauvoir – novamente, aqui, a deficiência não estava em questão, mas, em uma interpretação livre, assumi que é possível estender o conceito). É essa normatividade opressora que torna os outros grupos oprimidos sem representatividade, ausentes, invisíveis (definição de Joan Scott sobre invisibilidade de gênero. Como ocorreu ao longo de todo o parágrafo, entendi que é possível estender o conceito à questão da deficiência).

Então, se hoje pensamos o sujeito normal como o ser humano sem deficiência, não foi somente porque Leonardo Da Vinci pensou dessa forma quando em 1490 representou o sujeito universal em sua obra O Homem Vitruviano, nem tampouco apenas porque o ideal de sujeito universal se consolidou no Iluminismo e na Modernidade, mas, também, porque historicamente, os grupos que detêm representatividade e poder impõem o silenciamento e a invisibilidade aos que eles consideram como os outros, como os diferentes.

Portanto, o sujeito normal nada mais é do que uma construção social, perceba. Assim como a normatividade opressora há séculos quer nos fazer crer que homens são mais valorosos ou hierarquicamente superiores às mulheres, que brancos o são em relação às outras raças/etnias, que aqueles que detêm o poder político e econômico são meritocraticamente superiores às populações periféricas, que a heterossexualidade é a condição “natural” de todos os sujeitos e que qualquer outra possibilidade de orientação sexual é uma “anormalidade” ou uma “anomalia”, da mesma forma essa mesma normatividade opressora nos quer fazer crer que o ser humano “normal” é o sujeito sem deficiência, e que qualquer deficiência o transforma em um sujeito com uma “anomalia”, hierarquicamente inferior, qualitativa e negativamente diferente, o outro incapaz, incompleto, deficiente.

Não devemos nos culpar por não ter visto isso desde sempre. Como disse Joan Scott, essa normatividade opressora invisibiliza os que não possuem as especificidades do sujeito universal. Mas tomar consciência desse contexto é muito importante para que vejamos que o conceito e a ideia de normalidade é artificial e que não se justifica racionalmente, já que a definição do que é normal é uma construção opressora de um grupo que não representa toda sociedade. Essa compreensão também nos permite entender o quanto é importante a nossa luta contra a continuidade da opressão desse padrão normativo. E essa luta é de todos – a menos que você se sinta representado por essa opressão e que deseje perpetua-la.

Todos somos diferentes, não há valor na diferença, ou seja, não é melhor ou pior ser diferente, já que não existe um padrão de valor, e o normal é ser diferente.

PS: apenas pra fazer a ponte com a minha postagem de uns dias atrás, se não é melhor, nem pior, ser diferente, se não há qualidade na diferença, então a deficiência não torna nada mais difícil, nem mais fácil em relação a não deficiência, apenas diferente (nem a maternidade/paternidade de pessoas com deficiência em relação à maternidade/paternidade das pessoas sem deficiência). As dificuldades que surgem na vida das pessoas com deficiência, assim como na maternidade/paternidade de uma pessoa com deficiência, e que são muito reais, inúmeras e frequentes, decorrem todas da mesma sociedade onde o padrão normativo opressor se reproduz, e não da deficiência, ou da pessoa. Nunca da pessoa.

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