Sobre a idealização da maternância. Ou sobre o luto da maternância idealizada

Ok. Eu tenho uma enorme necessidade de controle e vivo em uma permanente tensão com a síndrome de Down diante da sua imprevisibilidade. Mas isso não significa que, por isso, eu considere que o exercício da maternidade de uma criança com síndrome de Down seja mais difícil ou doloroso ou desafiador que o de outras mães.

Então do que eu reclamo? Eu reclamo das dificuldades da minha própria experiência. Eu não reclamo porque a minha experiência é mais difícil que as outras. Todas as experiências são difíceis. Se consultarmos agora um blog sobre maternidade, veremos dezenas, centenas, milhares de mães exaustas lamentando a violência obstétrica que sofreram, a gangorra hormonal, a depressão pós-parto, ou o leite empedrado e os bicos dos peitos sangrando, ou a privação do sono, ou a falta de tempo pra si, a dificuldade com o início da alimentação sólida, a volta ou não ao mercado de trabalho, ou que a criança não come, ou que come muito, o desfralde, a dupla e às vezes tripla jornada, mais exaustão, o início na escolinha, o que mandar de lanche pra escola (isso é um capítulo não publicado do Inferno de Dante) e assim por diante, mesmo quando a criança não tem nenhuma síndrome ou transtorno ou “nada que preencha um diagnóstico”.

E quando chega a adolescência? Estou até hoje reelaborando as questões da adolescência da minha primeira filha (que eu mesma tive na minha adolescência!). Eu poderia ficar aqui listando centenas de situações até que essa criança se torne um adulto e saia de casa (alerta de spoiler: não acaba aí, vai por mim).

O que quero dizer é que a maternidade de uma criança com síndrome de Down é cansativa (como as outras) e eu reclamo dela sim. Reclamo da absurda falta de profissionais de saúde que estejam atualizados sobre a síndrome de Down. Reclamo da insegurança de viver com o fantasma da leucemia me assombrando. Reclamo do cansaço com as terapias, da insuficiência do atendimento pelos planos de saúde, do favorecimento que a síndrome de Down promove ao surgimento de inúmeras comorbidades, do preconceito, discriminação etc. Reclamo até do que eu ainda não vivi pessoalmente mas que sei que existe, como a falácia da inclusão escolar. Mas, todas essas dificuldades, não tornam o meu exercício da maternidade mais difícil ou mais especial que o das outras mulheres, mães de crianças sem síndrome de Down. Elas também são mulheres em um contexto de dominação patriarcal, vítimas da misoginia social. Elas também estão inseridas em uma realidade que desampara qualquer maternidade. O fato de que eu tenho que lidar com uma vulnerabilidade a mais, decorrente da discriminação à pessoa com deficiência (capacitismo), não torna a minha experiência “especial”. Não é uma competição de dificuldades.

Percebo atualmente que vivi em alguma medida esse processo. Precisei não apenas superar o tal do “luto do filho idealizado” (superei quando entendi que isso também é uma construção social), mas, também o luto da maternância idealizada. No passado, eu não entendia quando as mães diziam que criar uma criança com síndrome de Down é a mesma coisa que criar uma criança sem síndrome, porque eu pensava que se tratava do argumento de que as demandas das crianças fossem as mesmas. E aí eu pensava: como essa pessoa pode dizer isso? Que não existe diferença? Qual o problema com a diferença? Todo mundo é diferente entre si. Vem cá querida, que eu vou te mostrar a diferença (leia com o maior tom de indignação que você conseguir reproduzir).

Hoje, entendo que, quando uma mãe de criança com síndrome de Down diz que “não tem diferença” na criação dos filhos, o que se deve entender é que cada filho é um universo próprio, que exige uma abordagem específica em razão de suas demandas. E que essas demandas, mesmo sendo diferentes entre si, exigem o mesmíssimo exercício de maternância, que é tentar proporcionar ao filho tudo aquilo que suas especificidades exijam. E nenhum exercício é fácil. É indevido compará-los, porque não há como comparar experiências pessoais, mas, na forma, são o mesmo exercício de doação de uma mãe para a construção de um novo ser humano. Então são exercícios substancialmente diferentes (as demandas de cada criança) e essencialmente iguais (a busca por proporcionar a satisfação das diversas demandas).

Quando lamento as dificuldades causadas pela síndrome de Down, não quero dizer com isso que a maternidade de uma criança sem síndrome não tenha dificuldades tão intensas quanto. Afinal, em que maternância eu estaria pensando se imaginasse que a minha é mais difícil que a das demais mães? Só se for na maternância ideal. Aquela em que a criança ilustraria as páginas dos guias para novas mães, com sua própria história.

Apenas a comparação da minha maternância com uma maternância idealizada é que pode produzir como resultado a ideia de que a minha é mais árdua, mais exaustiva, mais nobre, mais relevante, mais significativa, ou, como dizem muitos – especial.

Se o “luto do filho idealizado” é superado pelo vínculo forjado no amor, que se forma com a criança, o luto da maternância idealizada é mais difícil de identificar e continua sendo alimentado socialmente, quer seja pela parábola da viagem à Itália que acabou na Holanda (https://pensador.uol.com.br/frase/NTM5NzA4/), quer seja pela parábola dos caminhos distintos da montanha e da praia, quer seja pelo nosso sentimento de desamparo, construído pelo descaso da sociedade para com os nossos filhos, que nos atinge enquanto mães e, que por isso, facilmente associamos ao nosso exercício de maternidade.

A leveza que essa compreensão me trouxe, deixou claro pra mim que, mesmo já tendo outros filhos, mesmo já sabendo que nenhuma maternidade é simples, mesmo assim, eu passei pelo luto da maternância idealizada, por ter cogitado, em algum momento, que era mais difícil pra mim do que para as demais mulheres com filhas ou filhos sem síndrome de Down.

obs: enorme gratidão a Mônica Romero Solorio, primeiro por estar na minha vida e, por fim, por ter colocado em perspectiva a minha inútil necessidade de controle.

4 comentários em “Sobre a idealização da maternância. Ou sobre o luto da maternância idealizada”

  1. Olá Gisele, sou fã de suas postagens desde que meu Guilherme nasceu, hoje com 2 anos… É incrível como a cada angústia que me aflige e eu aqui venho procurar se vc já falou sobre o assunto e vc tem aqui palavras tão bem escritas e que nos trazem de volta ao chão! Obrigada e parabéns por compartilhar suas experiências traduzindo-as de forma clara e honesta. Esse post é simplesmente sensacional! Vc ficaria surpresa de como ele fez sucesso e ajudou amigas que não tem filhos com SD.

    1. Oi Fernanda,

      Nossa, estou muito feliz com o seu comentário. Muito obrigada. Agora sou eu que digo – você não sabe o quanto suas palavras foram importantes pra mim. A energia dessa troca é muito preciosa, muito valiosa. Muito obrigada mesmo.

      Beijos

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