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Informação na medida certa

Acredito que os pais que reagem negativamente à notícia de que seu bebê tem síndrome de Down possuem suas razões para tanto e por isso entendo que não cabe a ninguém julgá-los . Eu fiquei bastante assustada, especialmente porque, após ter sido afastada a suspeita de cardiopatia pelo resultado de uma ecografia realizada na 20ª semana de gestação, Luisa nasceu com sopro cardíaco. Quando fui informada da cardiopatia teve início o meu processo de derrapagem emocional ladeira abaixo (ainda tô subindo essa ladeira). A fotografia abaixo é de uma hora antes de ser informada da cardiopatia da Luisa (haverá um post só pra falar sobre isso, especialmente porque o sopro voltou a ser identificado durante o exame clínico).

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Alguns pais podem ter que lidar com sentimentos de frustração, impotência e até mesmo rejeição. Considero tudo isso bem normal. Mas certamente a desinformação é a grande responsável pela potencialização desses sentimentos, é a fonte que alimenta e mantém todas as angústias . O que sabemos sobre a síndrome de Down quando não estamos pessoalmente envolvidos na questão é irrisório. O que chega até nós são apenas notícias difusas através do noticiário e dos programas de televisão. Uma ou outra situação pontual de visibilidade, algumas delas relacionadas a histórias de superação, como a de crianças que moram em hospitais por anos a fio em decorrência da existência de outras síndromes associadas ao Down, ou notícias que nos informam da existência de uma jornalista, um lutador de judô, uma bailarina etc, com a síndrome.

O pouco que eu sabia foi por ter pesquisado durante a gravidez, me preparando para esta possibilidade em razão da minha idade, pesquisa essa que foi abandonada porque os exames não apresentaram indicadores sugestivos da síndrome, o que fez todo o meu foco se voltar para os outros muito problemas da minha gravidez de alto risco.

Mas o antídoto pra essa situação tem que ser muito bem dosado, entre outras coisas por causa do risco da interpretação equivocada das informações recebidas, além do risco contido na informação não confiável. Eu dediquei todas as horas livres dos meus dias nos últimos dois meses e meio à pesquisa sobre tudo que se relacionasse com o tema. Entendi que as pessoas adultas com síndrome de Down cresceram em uma época em que não havia todo o volume de conhecimento de que dispomos hoje, nem as atuais propostas e métodos terapêuticos de intervenção, Por essa razão as crianças de hoje poderão se tornar adultos com mais conquistas e menos dificuldades. Então é necessário que, além do esforço de verificação sobre o grau de confiabilidade da informação, haja um esforço interpretativo e de contextualização, para saber se as conclusões dela decorrentes ainda são aplicáveis às pessoas que estão nascendo agora.

Para ilustrar o que digo, Luisa colocou hoje a Placa Palatina de Memória com a Dra Elizabeth Yamasaki (https://www.facebook.com/elizabeth.yamasaki.9?ref=ts&fref=ts), um recurso que não havia anos atrás e que proporcionará incríveis melhorias na sua qualidade de vida  (haverá posts especificamente sobre esse assunto). Então esperamos que a característica de protusão da língua e as complicações daí decorrentes não permaneçam como uma possibilidade para Luisa, portanto, se tudo correr conforme o planejado as informações no sentido de como simplesmente lidar com as consequências de tal característica já não servirão mais para nós, mas serão de muita utilidade para as pessoas que apresentem a protusão da língua. Então não adianta acumular um volume de dados tão grande, mesmo que confiável, que seja difícil de processar. O ideal é nos concentrarmos nos temas relacionados às características presentes em nossas crianças, pois pelo que vi nesses poucos meses, a sobrecarga de informação desnecessária só nos desviará do que realmente importa (o que é provável, diante da explosão de informação sobre a síndrome de Down após o mapeamento do cromossomo 21 em 2000). Por outro lado, a evolução da ciência muda antigas considerações antes tidas como verdades. O que antes era contra-indicado pode passar a ser recomendado e por isso é importante manter a cabeça aberta ao novo, mas com responsabilidade.

(Nas imagens abaixo vemos a Dra. Elizabeth fabricando ela própria todo o material necessário para a confecção da placa, a Luisa já utilizando esse recurso sensacional e a Placa em si. Escolhi essa foto para demonstrar que, mesmo de boca aberta, Luisa não põe a língua para fora da boca quando está com a Placa Palatina,tão pequenina e delicada, fabricada com tanto carinho e dedicação pela Dra. Elizabeth. Ao final do procedimento de colocação dessa primeira placa, não sei dizer quem vibrava mais, eu ou ela).

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 Portanto, informação é essencial mas tem que ser filtrada e dosada também . O primeiro passo é que ela venha de fonte confiável, o segundo é que seja atualizada e contextualizada. O contrário só nos prejudicará. Gosto de pensar que poderei acessar as informações em blocos, por fases do desenvolvimento. E gosto especialmente das informações sobre o novo. As novas terapias e os resultados obtidos, que podemos encontrar em artigos científicos em revistas indexadas disponibilizadas em diversas fontes e em repositórios de trabalhos científicos, nos trazem uma outra perspectiva, mais atualizada, sobre os novos limites a serem ultrapassados, vencidos, na busca de uma vida autônoma e de qualidade para os nossos pequenos. Essa nova perspectiva é como um bálsamo para as minhas angústias, me apresenta uma promessa de futuro que me devolve aos poucos a tranquilidade, me permitindo respirar e dedicar mais tempo simplesmente para olhar para minha filha e, afastadas muitas das rugas de preocupação, me apaixonar cada vez mais perdidamente por ela. Me ajuda a retomar o sorriso dos lábios e o brilho dos olhos.